terça-feira, 8 de junho de 2010


Às vezes a impressão que me dá é que as coisas mais horripilantes são as melhores! Geralmente o melhor final para um filme de terror, é o inesperado. Coisas muito bonitinhas dão-me náuseas, gente feliz demais para mim é encenação, puro teatro. O horror costuma ser verdadeiro, por pior que seja, não dá para disfarça-lo. Verdade?

É, com certeza, o melhor final para um filme, ou para uma vida. Talvez seja por isso que eu o escolhi. Tudo muito bem planejado e muito bem disfarçado. Se for para ir, quero ir em grande estilo. Quero que todos se sintam culpados e se amargurem por tudo que me fizeram! Eu não sou um brinquedo, mas sempre me trataram como um.


Escolhi um dia qualquer, bem ensolarado e para os outros, até mesmo bonito. Tanto faz. Fazia dias e dias que não saia de casa, todos me ligavam e tentavam falar comigo, era propositado. Saí de lá apenas com uma camisola e chinelos, entrei no elevador apinhado de gente que me olhava assustada e apertei o botão para o último andar.

Foram intermináveis minutos até chegar ao meu destino, tive de esperar todas as pessoas descerem para finalmente conseguir subir. Passei pelo terraço, indo até a extremidade que ficava de frente à avenida. Coloquei o primeiro pé na beirada e olhei para baixo, sorrindo, apoiei o outro. O vento soprava forte na direcção contrária, quem sabe quisesse empurrar-me para longe da beira. Não importava, não ia conseguir.

Contudo, não tinha graça um espectáculo de horrores sem uma plateia assustada. Tirei os chinelos e atirei o primeiro que caiu perto de uma velhinha que olhou para cima e gritou quando me viu. Estava a ficar bom. Esperei poucos minutos e atirei o outro, mas naquela hora já não era necessário mais nada para chamar a atenção.

Primeiro a velhinha avisou todos em volta, alguém ligou para a polícia que começava a anunciar um monte de idiotices com um auto-falante e logo após veio a imprensa. Tinha me informado, e sabia que se demorasse a atirar-me eles iriam me impedir antes mesmo de colocar os pés para fora. Então não ia perder tempo.

O vento soprava cada vez mais forte. Tirei o primeiro pé do apoio e abri meus braços no melhor estilo titanic que consegui e soltei o corpo... Caindo no abismo da morte que todo espectáculo de horrores que se preze deve ter.



"Eu só queria que me respeitassem, que me tratassem como gente, que possui sentimentos e vontades. Acolhi-me no horror, mas tinha inveja dos espectáculos. Resolvi então criar a minha própria e eis o resultado. Ficarei marcada na história com eles, onde eu sei que, seja lá onde eu vá parar, serei tratada como vocês nunca tiveram a capacidade de fazer. Culpem-se sim, é tudo que eu quero! E tenham cuidado para que ninguém puxe o pé à noite, talvez seja os meus cumprimentos quando estiver a passar por perto.
Aquela que vocês humilharam. "

-Ataque de criatividade, eu não sabia o que escrever até o momento em que escrevia.

2 comentários:

O Toninho disse...

Olá Stefi,
O nome do teu blogue condis na perfeição com este teu texto.
Tenho quase a certeza que todos nós já imaginamos como seria a nossa morte, deve serv tudo menos um espectaculo.
Só se suicida quem não tem pedalada para aguentar o ritmo que a vida nos impõe.
Outra curiosiedade que reparei no teu texto é que se queres que te respeitem, tens que te respeitar a ti primeiro, e com um sonho destes não me parece que isso aconteça, então poderas impor respeito aos outros.
Desculpa qualquer coisa, é a opinião de um desvairado sonhador :)
Beijinhos e até uma proxima

stefi disse...

O Toninho - olá :) sim tens toda a razão. Felizmente isto é só um texto fictício.
Escrevi-o á alguns anos, e na verdade naquela altura eu pensava exactamente como refere o texto. Hoje, embora, seja passado, tenho as minhas recaídas. E foi por isso que decidi publicar este texto. Porque nem sempre consegui-mos nos "livrar" do passado.